BLOGGLOSTORA -José Carlos Peliano

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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O taxista, o arquiteto e a mobilidade social




O taxista, o arquiteto e a mobilidade social
José Carlos Peliano[1]
                 O taxista Boris, oriundo do Azerbaijão, quarenta e poucos anos, rodando pelas ruas de Moscou ano passado num carro velho, modelo Lada, informava com seu inglês quase nenhum que era formado em economia, trabalhado no mercado financeiro em seu país, mas mudado para a Rússia para melhorar de vida. Confessara que ganhava melhor que antes. Sua força vital era tamanha que a dificuldade de comunicação comigo fora contornada com esforço e imaginação e superada por sua incisiva expressão facial, movimentos, gestos e mímicas. O exemplo de Boris semelhante a muitos outros países afora fornece elementos para observações oportunas ainda que simplificadas sobre a relação entre educação e mobilidade social.
                Se a educação pode ser considerada credencial necessária para a melhoria ocupacional, ela não é suficiente tampouco decisiva. Há expressivas barreiras sociais como a nacionalidade, a língua, os hábitos e costumes e o preconceito, assim como importantes ativos pessoais tais quais experiência, conhecimento e até mesmo o perfil psicológico do indivíduo que se interpõem à entrada no mercado de trabalho e à ascensão funcional. As credencias formais de Boris, por exemplo, não lhe renderam nada além do banco dianteiro de seu taxi, embora tivesse nuances psicológicas de um bravo guerreiro.
                A edição especial de 18 anos de Carta Capital trouxe alguns artigos com considerações breves sobre o papel da educação no atual estágio da economia brasileira. Destacavam eles a importância de melhorar o nível educacional das crianças e jovens para se adequarem ao entendimento, à aplicação e mesmo ao desenvolvimento da tecnologia moderna diante dos avanços e desafios contemporâneos mundiais. Foi quando me lembrei de Boris e de tantos outros que correm atrás da melhoria de vida pelas ruas e vias desse mundo globalizado como os caminhoneiros, os motoristas de ônibus, os motoboys, ou pelos caminhos de terra do interior como os carroceiros, os guias de carros de boi e os guias de si mesmos ou os de pés no chão, entre outros, os cortadores de cana, os leiteiros e os trabalhadores temporários.
                Se ainda se imagina que a ascensão social pressupõe a igualdade de oportunidades que por sua vez exige níveis específicos de educação, Boris ainda procurava o caminho das pedras e tinha conseguido somente conhecer o meandro urbano moscovita e seus arredores. A questão é que a igualdade de oportunidades não leva consequentemente a oportunidades de igualdade. Boris explicaria: o contingente de indivíduos qualificados e formados pelas escolas não é o mesmo que o conjunto requerido pela demanda de qualificação e treinamento no mercado. Em outras palavras, quando se fala em mais e melhor educação fica-se do lado da formação educacional, que forma a oferta potencial de trabalhadores, a qual se concebe adequada aos requisitos profissionais buscados pelo lado do mercado, ou o perfil da demanda procurado pelas organizações. As oportunidades de trabalho podem ser até iguais, mas as condições de igualdade são diferentes em cada organização e para cada candidato.
                Os requisitos profissionais adquiridos por Boris não bastaram para que ele conseguisse ascensão social compatível com sua qualificação. O mercado urbano russo abriu ao economista azerbaijano apenas a porta dianteira direita de seu taxi próprio para ele entrar e trabalhar como condutor. Do mesmo modo acontece no mercado brasileiro, não adianta propiciar uma educação de qualidade, ainda que crítica e reflexiva, se amanhã o ontem não conseguir um degrau superior no dia seguinte. Mais ainda se a conta das crises econômico-financeiras, engendradas pelos desacertos entre empresas, bancos e governos, for posteriormente cobrada da população revoltada e atuante nas manifestações de hoje na Europa e no movimento de ocupação de Wall Street de ontem nos EUA.
                Estivesse Boris rodando pelas ruas de Nova Iorque talvez tivesse que fazer tanto ou mais corridas para ter uma sobra monetária diária melhor que em Moscou. Por quê? Stiglitz e Krugman mostram que a distância americana entre a renda média do 1% mais rico e a renda média dos 99% restantes beira 200 vezes, situação desigual essa acelerada pelos desdobramentos da crise da subprime de 2007. O que possibilita a ascensão social expressa pela melhoria de renda é o mercado, ou melhor, as condições de trabalho e salário ofertadas pelo conjunto das organizações e expressas na estrutura ocupacional de cada uma delas. Elas que absorvem a maioria da força de trabalho apta para trabalhar, elas que dão as cartas no cenário da competição capitalista e são elas que adequam a oferta de trabalho às suas estratégias empresariais.
                Os que não conseguem emprego nesse cenário têm de se virar em trabalhos e serviços por conta própria como Boris ou engrossar a fila dos desocupados e quando der do seguro desemprego. É claro que sobram as ocupações da administração pública no executivo, no legislativo e no judiciário, mas que, além de representatividade menor no conjunto dos ocupados, igualmente produzem e reproduzem escalas ocupacionais hierárquicas com exigências e requisitos próprios. A educação é aí com certeza uma credencial de entrada, avaliada nas mais das vezes por concursos públicos, e que vai ao longo da carreira, no entanto, perdendo sua importância para os demais requisitos. Mesmo na vida acadêmica os pesos das pesquisas, estudos e publicações bem pontuadas valem mais no tempo.
                Não resta sombra de dúvida que o nível educacional tem sido usado com mais intensidade pelo mercado para aprimorar a qualificação do contingente empregado por conta dos avanços tecnológicos e organizacionais que exigem novas habilidades e conhecimentos diferenciados. Não se pode hoje imaginar alguém com pouca educação formal ou profissional operando, por exemplo, uma máquina ferramenta com comando numérico computadorizado, coisa que ocorria antes quando o torneiro mecânico convencional aprendia por observação visual e exíguo treinamento junto à máquina ferramenta tradicional e assimilava esse conhecimento ao longo do tempo pela experiência. Mas a capacidade cognitiva de cada um desses profissionais diante das respectivas tecnologias guarda por certo graus proporcionais de complexidade e desenvoltura.  
Houve de fato um “up grading” educacional para as exigências de entrada no mercado diante do desenvolvimento tecnológico e da globalização, isto é, a operação de uma nova tecnologia exige novos conhecimentos e habilidades e, portanto, nova educação formal ou profissional, mas apenas isto. Depois no processo do trabalho e da produção é a organização quem determina qual o tipo de profissional que mais lhe convém e como ele vai seguir e exprimir suas habilidades nas funções por ela exigidas, catalogadas e monitoradas.
                Lembrei-me de repente de Zanine, paisagista, escultor e arquiteto autodidata capixaba que, ao contrário de Boris, conseguiu ascensão social marcante, reconhecida mundialmente pelo seu trabalho bem sucedido aliando curiosidade, criatividade, pesquisa, conhecimento e experiência. Não obteve uma credencial de educação para tal, apenas sua força de vontade, trabalho e persistência. Embora casos tidos como exceções, existem muitos como Boris, não tanto quanto Zanine, um taxista e um arquiteto, cada um com seus méritos e realidades. Ambos enfrentaram dificuldades para conseguirem chegar onde puderam e a educação formal não ajudou nenhum dos dois.


[1] Economista, doutorado Unicamp.

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