José Carlos Peliano[1]
O taxista Boris, oriundo do Azerbaijão, quarenta
e poucos anos, rodando pelas ruas de Moscou ano passado num carro velho, modelo
Lada, informava com seu inglês quase nenhum que era formado em economia,
trabalhado no mercado financeiro em seu país, mas mudado para a Rússia para
melhorar de vida. Confessara que ganhava melhor que antes. Sua força vital era
tamanha que a dificuldade de comunicação comigo fora contornada com esforço e
imaginação e superada por sua incisiva expressão facial, movimentos, gestos e mímicas.
O exemplo de Boris semelhante a muitos outros países afora fornece elementos
para observações oportunas ainda que simplificadas sobre a relação entre
educação e mobilidade social.
Se a educação pode ser
considerada credencial necessária para a melhoria ocupacional, ela não é
suficiente tampouco decisiva. Há expressivas barreiras sociais como a
nacionalidade, a língua, os hábitos e costumes e o preconceito, assim como
importantes ativos pessoais tais quais experiência, conhecimento e até mesmo o
perfil psicológico do indivíduo que se interpõem à entrada no mercado de
trabalho e à ascensão funcional. As credencias formais de Boris, por exemplo,
não lhe renderam nada além do banco dianteiro de seu taxi, embora tivesse
nuances psicológicas de um bravo guerreiro.
A edição especial de 18 anos de
Carta Capital trouxe alguns artigos com considerações breves sobre o papel da
educação no atual estágio da economia brasileira. Destacavam eles a importância
de melhorar o nível educacional das crianças e jovens para se adequarem ao
entendimento, à aplicação e mesmo ao desenvolvimento da tecnologia moderna
diante dos avanços e desafios contemporâneos mundiais. Foi quando me lembrei de
Boris e de tantos outros que correm atrás da melhoria de vida pelas ruas e vias
desse mundo globalizado como os caminhoneiros, os motoristas de ônibus, os
motoboys, ou pelos caminhos de terra do interior como os carroceiros, os guias de
carros de boi e os guias de si mesmos ou os de pés no chão, entre outros, os
cortadores de cana, os leiteiros e os trabalhadores temporários.
Se ainda se imagina que a
ascensão social pressupõe a igualdade de oportunidades que por sua vez exige
níveis específicos de educação, Boris ainda procurava o caminho das pedras e
tinha conseguido somente conhecer o meandro urbano moscovita e seus arredores. A
questão é que a igualdade de oportunidades não leva consequentemente a
oportunidades de igualdade. Boris explicaria: o contingente de indivíduos
qualificados e formados pelas escolas não é o mesmo que o conjunto requerido
pela demanda de qualificação e treinamento no mercado. Em outras palavras, quando
se fala em mais e melhor educação fica-se do lado da formação educacional, que
forma a oferta potencial de trabalhadores, a qual se concebe adequada aos
requisitos profissionais buscados pelo lado do mercado, ou o perfil da demanda
procurado pelas organizações. As oportunidades de trabalho podem ser até iguais,
mas as condições de igualdade são diferentes em cada organização e para cada
candidato.
Os requisitos profissionais
adquiridos por Boris não bastaram para que ele conseguisse ascensão social
compatível com sua qualificação. O mercado urbano russo abriu ao economista azerbaijano
apenas a porta dianteira direita de seu taxi próprio para ele entrar e
trabalhar como condutor. Do mesmo modo acontece no mercado brasileiro, não
adianta propiciar uma educação de qualidade, ainda que crítica e reflexiva, se
amanhã o ontem não conseguir um degrau superior no dia seguinte. Mais ainda se a
conta das crises econômico-financeiras, engendradas pelos desacertos entre
empresas, bancos e governos, for posteriormente cobrada da população revoltada
e atuante nas manifestações de hoje na Europa e no movimento de ocupação de
Wall Street de ontem nos EUA.
Estivesse Boris rodando pelas
ruas de Nova Iorque talvez tivesse que fazer tanto ou mais corridas para ter
uma sobra monetária diária melhor que em Moscou. Por quê? Stiglitz e Krugman
mostram que a distância americana entre a renda média do 1% mais rico e a renda
média dos 99% restantes beira 200 vezes, situação desigual essa acelerada pelos
desdobramentos da crise da subprime
de 2007. O que possibilita a ascensão social expressa pela melhoria de renda é
o mercado, ou melhor, as condições de trabalho e salário ofertadas pelo
conjunto das organizações e expressas na estrutura ocupacional de cada uma
delas. Elas que absorvem a maioria da força de trabalho apta para trabalhar,
elas que dão as cartas no cenário da competição capitalista e são elas que
adequam a oferta de trabalho às suas estratégias empresariais.
Os que não conseguem emprego nesse
cenário têm de se virar em trabalhos e serviços por conta própria como Boris ou
engrossar a fila dos desocupados e quando der do seguro desemprego. É claro que
sobram as ocupações da administração pública no executivo, no legislativo e no
judiciário, mas que, além de representatividade menor no conjunto dos ocupados,
igualmente produzem e reproduzem escalas ocupacionais hierárquicas com
exigências e requisitos próprios. A educação é aí com certeza uma credencial de
entrada, avaliada nas mais das vezes por concursos públicos, e que vai ao longo
da carreira, no entanto, perdendo sua importância para os demais requisitos.
Mesmo na vida acadêmica os pesos das pesquisas, estudos e publicações bem
pontuadas valem mais no tempo.
Não resta sombra de dúvida que o
nível educacional tem sido usado com mais intensidade pelo mercado para
aprimorar a qualificação do contingente empregado por conta dos avanços tecnológicos
e organizacionais que exigem novas habilidades e conhecimentos diferenciados.
Não se pode hoje imaginar alguém com pouca educação formal ou profissional
operando, por exemplo, uma máquina ferramenta com comando numérico computadorizado,
coisa que ocorria antes quando o torneiro mecânico convencional aprendia por
observação visual e exíguo treinamento junto à máquina ferramenta tradicional e
assimilava esse conhecimento ao longo do tempo pela experiência. Mas a
capacidade cognitiva de cada um desses profissionais diante das respectivas
tecnologias guarda por certo graus proporcionais de complexidade e desenvoltura.
Houve de fato um “up grading” educacional para as
exigências de entrada no mercado diante do desenvolvimento tecnológico e da
globalização, isto é, a operação de uma nova tecnologia exige novos
conhecimentos e habilidades e, portanto, nova educação formal ou profissional, mas
apenas isto. Depois no processo do trabalho e da produção é a organização quem
determina qual o tipo de profissional que mais lhe convém e como ele vai seguir
e exprimir suas habilidades nas funções por ela exigidas, catalogadas e
monitoradas.
Lembrei-me de repente de Zanine,
paisagista, escultor e arquiteto autodidata capixaba que, ao contrário de
Boris, conseguiu ascensão social marcante, reconhecida mundialmente pelo seu
trabalho bem sucedido aliando curiosidade, criatividade, pesquisa, conhecimento
e experiência. Não obteve uma credencial de educação para tal, apenas sua força
de vontade, trabalho e persistência. Embora casos tidos como exceções, existem
muitos como Boris, não tanto quanto Zanine, um taxista e um arquiteto, cada um
com seus méritos e realidades. Ambos enfrentaram dificuldades para conseguirem
chegar onde puderam e a educação formal não ajudou nenhum dos dois.
[1]
Economista, doutorado Unicamp.

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